Quase 50 anos depois do fim de uma amizade, dois grandes amigos se encontram por acaso em um banco de uma pracinha. Um se chama Odorito e tem 70 anos, o outro de chama Alfredo e tem 73 anos.
Odorito senta no banco da praça, mal humorado com um jornal em baixo dos braços e nem olha para o lado, abre o jornal e começa a ler as noticias do dia, dando preferência para a pagina policial, não se importando com as boas noticias. Fica com o jornal a frente dos olhos, optando por não olhar para os lados e ver as crianças correndo sobre os brinquedos da praça. Odorito não demora a se incomodar com o barulho dos pássaros, mas tenta suportar o canto deles por que preferia o barulho dos pássaros que o silencio de sua casa, tão vazia depois da morte de sua mulher e a partida de seus dois filhos para suas casas, não se importando mais com ele.
Uma hora se passou e logo Alfredo se senta do lado dele, sem jornal, adorava sentar naqueles bancos da praça, bancos de sua infância, adorava o canto tão maravilhoso e sadio dos pássaros, adorava ver as crianças correndo para todos os lados, lembrava sempre dos filhos quando crianças e agora dos netos. Olhou para o lado e viu um outro senhor com um jornal em frente ao seu rosto. Meia hora depois de se sentar, resolve falar com seu companheiro de banco pela primeira vez, o outro, com frieza abaixa o jornal, na hora seu coração começou a bater forte, os olhos cheio de lágrimas resumiam aquele momento. Odorito reconheceu o amigo de infância e adolescência, logo Alfredo também o reconheceu. Aquele momento seria único na vida dos dois.
Odorito contou sobre sua vida durante todo esse tempo em que eles estavam distantes um do outro. Contou sobre seus filhos que o abandonaram depois da morte de sua mulher. Contou que se formou em advocacia e que trabalhava constantemente para dar uma vida feliz aos filhos, um futuro honesto, porem não contou nada demais, nada que um pai de verdade não faria por um filho, contou sobre seu casamento, que depois de 20 anos acabou virando uma amizade pois nenhum dos dois aguentavam mais a ignorância um do outro. Disse ao amigo que não foi feliz durante todos os anos em que esteve longe da amizade dele, que seu casamento era mantido somente por causa de suas duas crianças e que trouxe de sua juventude o mal humor que lhe era peculiar. Disse ao amigo que se sentia todos os dias sozinho, que o canto dos pássaros, que a bagunça das crianças nunca o agradou, porem a pracinha era o único lugar que ele tinha para lembrar de sua juventude.
Alfredo, sempre tão alegre, ouviu o amigo e contou-lhe sobre sua vida, contou-lhe que foi muito feliz, que fez bons amigos, porém nenhum igual ao mal humorado Odorito, Alfredo disse ao amigo que tentou de todas as formas encontra-lo, porem não consegui, teve que se mudar para Santa Catarina, se tornou ator de teatro e Santa Catarina era sua nova cidade. Alfredo disse que teve 4 filhos e vive bem com sua mulher, a velha amiga de escola, Joana. Contou que foi feliz demais, que aproveitou o canto dos pássaros, o barulho das crianças e que sentiu muita falta do velho amigo.
Os dois se levantaram e se abraçaram, marcaram de se encontrar na praça para irem um na casa do outro. Odorito nunca mais foi visto. Odorito faleceu na noite do encontro e suas últimas palavras foram "Deus, obrigado pelo último dia de minha vida ao lado de meu velho amigo Alfredo".

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